domingo, 17 de abril de 2016

A VERDADE, A POLÍTICA E AS IDEIAS PARA CONSUMO

Talvez soe como escapismo ou pura alienação, mas estou cansado de ler, ver e ouvir os "comentários políticos" que de algum modo afetam minha consciência e os meus sentidos no momento. É só isso que vemos, ouvimos e discutimos agora. Alguns sabem lidar com o respeito da diversidade, já outros, chamados também de haters, essas palavras da moda criadas pela internet, mas que traduzem muito bem essa nova qualidade de pessoas, só sabem esbravejar suas verdades e preconceitos como donas absolutas dessas supostas verdades...

Diante disso, dessa realidade em que ninguém parece estar com a verdade ou o seu oposto, prefiro acatar a sugestão de um amigo e colega de profissão em "suspender o juízo" e me acalentar nas asas da ave de Minerva buscando distanciar-me o mais possível para tentar enxergar com a clareza que nos falta em dias assim. Os sofistas que nos digam, em especial Protágoras de Abdera, vivido no século IV a.C., quando nos falara que "o homem é a medida de todas as coisas", e que nos auxiliará nesse post.

Obviamente que não vamos aqui destrinchar detalhada ou ainda filosoficamente as reflexões específicas a que este filósofo propõe. Vamos sim tentar partir uma reflexão a partir dessa sua frase icônica e tentar compreender o quão de "verdade" ela se evidencia na realidade humana, em especial a nossa atual aqui no Brasil.

Lembremos o papel elementar da filosofia, o de refletir, de "olhar diferente" para nossa realidade, de não aceitar as verdades ditas como tal e tentar mostrar a diversidade de perspectivas, diga-se de passagem, o modus operandi do filósofo. Digo isso posto que ainda encontramos alguns indivíduos que insistem em reforçar a ideia - no mínimo preconceituosa, se bem que sou suspeito para afirmar isso - de que a filosofia é um saber inútil ou que não contribui para absolutamente nada em nossas vidas práticas. Prefiro assumir que ela continue assim!

Tais indivíduos que denomino possuir uma "visão de cabresto" - influência de minha cultura nordestina, assumo - acreditam piamente em suas verdades e não conseguem compreender que essas suas verdades são construções, são invenções ideológicas ou discursivas que lhes auxiliam na compreensão de suas realidades. Sendo assim, suas realidades também não passariam de construções humanas o que, em muitos casos, são postas por um grupo dominante.

Immanuel Kant. Fonte: filosofiamevideo.com.br
A autonomia da razão tão apregoada pelo consagrado Kant, filósofo alemão vivido no final do século XVIII e início do século seguinte, pressupõe que o indivíduo pense por conta própria - o sapere aude! - e de algum modo consiga desvencilhar-se dessas amarras ideológicas ou discursivas impostas por outros. O indivíduo deve correr o risco de pensar por conta própria, apreender a realidade e assim criar uma consciência do mundo e de si sem se valer de conjunto de ideias de outrem. Alguém que busca outra dimensão da realidade além das necessidades imediatas. Contudo, não é o que vislumbramos ainda nessa dita sociedade moderna ou contemporânea. Parece-nos que cada vez mais as pessoas estão de algum modo se vendo obrigadas a "pensar por atacado" acreditando que basta se valer de um pensamento-produto em alguma prateleira acreditando estar realizando o melhor "negócio" de suas vidas. Pior ainda: ao comprarem e consumirem esses pensamentos-produtos, defendem-nos com unhas e dentes não aceitando um pensamento-produto distinto do seu, com aquela arrogância pequeno-burguesa em assumir que "o que eu tenho é melhor que o seu" não se questionando da autenticidade ou qualidade de quem os fabricou e o objetivo fundamental deste pensamento-produto revolucionário, e tal peculiaridade é ainda mais evidente e violenta nos haters quando atuam sobretudo no mundo virtual.

Protágoras de Abdera. fonte: www.tautonomia.com.br
Perguntaria Protágoras: "quem está com a verdade?" E ele próprio responderia: "Ninguém, posto que ela não existe". A realidade de cada um diz respeito a cada um, e cada realidade foi criada a partir das concepções, das disposições, dos modos de ser e de viver de cada pessoa. Sendo assim, nobres leitores, como afirmar se Dilma ou Cunha ou Temer estão certos - ou errados - em alguma coisa que eles façam ou deixem de fazer? Como afirmar e convencer os seus respectivos defensores e críticos também de que na realidade estão todos sendo ludibriados por essa aparência de verdade que eles insistem em propagar e assim defender? Esquecem-se todos de exercitar a reflexão, de perguntar, de duvidar, essa arte tão prazerosa difundida pela escola cética e que, de algum modo, faz parte do cerne do fazer filosófico, da experiência filosófica. Aliás, como realizar tal façanha, como valorizar a dúvida, se vivemos em um mundo que busca a todo instante valorizar as aplicações imediatas do conhecimento? Como privilegiar a dúvida se as concepções dos que são contra ou a favor do impeachment da presidente Dilma estão já postas, determinadas, resolvidas, ou ainda, já se efetivaram enquanto verdades absolutas? É um dos desafios mais inglórios e mal-entendidos de que temos conhecimento.

Presidente Dilma Roussef e o presidente da câmara dos deputados Eduardo Cunha. Fonte: veja.abril.com.br
Lembremos ainda que, nessa perspectiva sofística, a política nada mais seria do que um lugar para persuasão e que ninguém ali, quando entra neste meio, estaria efetivamente preocupado em assumir que a verdade não existe e que ela não passaria de pura convenção. O circo iria acabar e os artistas - longe de mim dizer que um artista circense é idêntico a um político! - não fariam mais seu show, não ficariam mais no centro do picadeiro chamando a atenção com seus números e encenações, e fatalmente o público os abandonaria. Aliás, quem é a atração principal nesse grande picadeiro que é a realidade humana?

sábado, 19 de março de 2016

A dupla face da política

Tempos inseguros, incertos. Tempos em que a esperança desfaleceu, foi pra bem longe daqui... Nossa política vai muito mal das pernas, aliás, e quando ela foi bem de verdade?...

A política parece possuir duas faces: uma escondida do povo e a outra pra ser mostrada. Claro que esta última possui uma face bonita, maquiada, às vezes até elegante, charmosa, por vezes alegre, esbanjadora de uma cutis jamais vista... Já a outra face é funesta, assustadora, horripilante... Numa palavra: real. Esta face é a que de fato importa para os fazedores de política. É ela de fato quem mobiliza a sociedade. Não é a face bonita, que aparece na tevê com incontáveis personagens pomposos, positivistas ou até esperançosos. A face mostruosa da política não é pra qualquer um. Maquiavel já alertara.

Um político deve estar preparado para os dois lados da política, mais ainda para o lado obscuro, esse lado bizarro. Na realidade, esse lado dito bizarro e as demais características de teor negativo somente o são para aqueles que não a conhecem. Quem está acostumado não vê dessa forma. Acha tudo absolutamente "normal".

Política está intimimamente relacionada  com poder, ousaria até afirmar que são sinônimos... Alguém poderia então dizer: "mas o poder está também em lugares longe do palco onde efetivamente acontece a política, entre os ditos políticos, os políticos profissionais" - aliás, tal termo já denota algo moralmente questionável! Perfeito. De fato. A política existe onde há alguma relação de poder, onde haja uma interação humana mínima. Agora, a forma como se faz política depende do ambiente, da esfera onde ela queira acontecer, mostrar-se ou não. Num ambiente macro, no palco da governança de qualquer sociedade humana ela terá essa dubiedade, essa dupla face e será manipulável por aqueles que sentem nesses jogos de relação de poder uma satisfação por simplesmente estar ali olhando aquela face putrefata acostumando-se a enxergar outro tipo de beleza.

Mas, e quando acontece de esse lado podre vir à mostra? Torna-se caos. Um verdadeiro inferno, sobretudo para os envolvidos direta e indiretamente.  Ainda há outro detalhe! Achamos que a política de face funesta apresenta-se por inteira? Que nada... Ela é tímida quanto às suas verdades. Mostra muito pouco. E do pouco que mostra já vemos a desgraça que pode gerar. Olha a situação caótica política que estamos vivenciando no país. Isso somente porque vislumbamos uma pequena parcela de sua face putrefata, imagine se víssemos tudo?!

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Era do conhecimento ou da desumanização?

Vivemos em um mundo cada vez mais repleto de informações, isso é fato e até se tornou clichê. A quantidade delas tende a cada vez mais aumentar de maneira tão intensa e às vezes assustadora que sequer conseguimos criar um tempo para acompanha-la a contento. Deve-se, sobretudo, ao avanço das comunicações em especial a Internet. Um mundo intenso que exige cada vez mais de nós um time diferenciado senão ficaremos para trás. Para se ter um emprego: conhecimento, se específico e mais atualizado da profissão, ótimo. Para adentrar uma universidade, e aqui refiro-me ao Brasil (ENEM, por exemplo): mais conhecimento e o aluno se vê obrigado a não parar seus estudos se pretende ter uma boa qualidade de vida - muito embora haja algumas controvérsias a esse respeito. Até para viver, desde a mais tenra idade, a criança está fadada a buscar mais e mais conhecimento, mais informação! Não há tempo para brincadeiras - perda de tempo! -, o time is money tornou-se um mantra pelo qual todos devemos seguir diuturnamente.


A título meramente ilustrativo: recentemente aqui em meu estado, uma criança, ou melhor, um adolescente, com seus recém concluídos 15 anos de vida, ingressa no concorridíssimo curso de medicina da universidade federal de Sergipe. Os amigos, parentes, conhecidos e principalmente a imprensa exaltaram-no como grande herói por ter realizado um feito que muitos jovens e adultos, inclusive, sequer chegaram perto de uma colocação boa como excedentes - conheço um monte de colegas assim. Não que esteja desmerecendo-o, longe de mim! Reconheço o feito que ele conquistou com muito suor, mas o fato é: a que preço? Esse exemplo é apenas mais um sintoma de algo latente legado a nós pela promessa da modernidade.

A sociedade pós-industrial ou a Era da Informação também possui em seu cerne uma sociedade que valoriza bastante a informação, o conhecimento. Em parte soa até como algo bom, positivo. Mas, atrelado a isso vem os exageros, a desmesura. Sacrifica-se o período lúdico essencial para a formação plena de um adulto, por exemplo. A brincadeira pela brincadeira apenas soa hoje quase que como um crime, principalmente no seio das famílias de classe média. Para manter-se com certo status social faz-se necessário sacrificar brincar de esconde-esconde ou até mesmo de video-game e obrigatoriamente pensar em um futuro promissor financeiramente falando. Não se pode perder tempo com frivolidades. Tudo deve estar devidamente planejado para que não se perca o sucesso financeiro de vista! Vê-se a criança como um investimento, um futuro médico, um futuro advogado ou engenheiro - quase nunca um futuro professor! E isso envolve ainda um outro problema também sério: a qualidade dos conteúdos adquiridos...

De que me adianta ter o domínio perfeito sobre uma determinada área de conhecimento se não consigo refletir o todo, a função desse conhecimento adquirido ou ainda a consciência da relação que esse conhecimento terá para com a sociedade, a comunidade da qual faço parte? E aí me reporto a uma frase pichada no muro de uma universidade que simboliza um manifesto artístico além, é claro, de filosófico: "seu conhecimento serve a quem?".

Essa qualidade das informações ou dos conhecimentos adquiridos reflete no profissional de algum modo. Claro que vai depender também de certo poder de criatividade do portador ou requerente desse conhecimento para adaptar o que foi aprendido. Mas vemos casos e mais casos nos meios de comunicação de médicos ou advogados - e isto se aplica a qualquer profissão - sem escrúpulos ou que cometem atrocidades inimagináveis para a profissão que foi escolhida. Médicos "incapazes" de ajudar um paciente que não pertença a um plano de saúde; advogados que "protegem" por "obrigação da profissão" réus confessos ou que se envolvem em crimes de seus próprios clientes; engenheiros que estão mais preocupados em receber um "bônus financeiro" para reduzir os custos de uma obra e despreocupar-se com a segurança da construção... São incontáveis os exemplos e óbvio que não estou especificando qual profissão seja a mais corrupta, apenas apontando que em qualquer profissão existe aquele indivíduo que não consegue reconhecer/refletir a respeito de seu papel presente na escolha profissional realizada e a relação que essa escolha possui com a comunidade da qual faz parte.



Max Horkheimer e Theodor Adorno, expoentes da Escola de Frankfurt.

Lembremos do nazi-fascismo e da crítica filosófica realizada por Adorno e Horkheimer a respeito dos avanços científicos realizados, em especial pelos alemães adeptos a Hitler em detrimento da liberdade dos judeus e a favor de sua opressão. Em nome do avanço da ciência, podia-se dissecar um judeu vivo contra a sua vontade, por exemplo. E a vida desse judeu, ou melhor, desse ser humano? Parece-nos que o conhecimento transmitido não possui uma ligação com o ser do ser humano.

O ideal da modernidade, de subjetividade ou de valorização da razão foi completamente deturpado e assim desviado do seu principal objetivo que era o de oferecer um mundo melhor aos seres humanos. Máquinas de matar são inventadas sem a menor reflexão sobre seu objetivo principal. Remédios para cura de doenças que ainda assolam os seres humanos são comercializados apenas pelo grau de valorização financeira ou quais mercados eles poderão oferecer maiores lucros. A fome que tanto assola os países pobres é combatida com doações simbólicas e pontuais de órgãos internacionais ou não e que têm que conviver com as estatísticas dos desperdícios dos países mais ricos cada vez mais alardeados aos quatro cantos do mundo. Exemplos não nos faltam dos avanços e retrocessos que o projeto da modernidade legou aos seres humanos espalhados pelo mundo afora. Isso sem comentar os problemas ambientais também causados por esse avanço do conhecimento inconsequente.

Campo de concentração (ou extermínio) de Auschwitz.

Vivemos sim em uma época na qual os estudiosos se digladiam em tentar denomina-la de era da informação, pós-industrial ou da globalização entre outras. Os termos, apesar de distintos, parecem convergir para um novo sentido de humanidade, mas, sem dúvida, uma humanidade que assusta, que preocupa. Uma humanidade que faz um indivíduo tratar seu semelhante com desprezo, com asco, com distanciamento ou até mesmo como simples fonte de renda. Conceitos novos e realizações científicas inovadoras encantam e encantarão sempre a humanidade. A quantidade de conhecimento que um ser humano mediano pode ter acesso é fantástica e ao mesmo tempo assustadora. A qualidade das informações muitas vezes não é discutida.  Humanos que são confundidos com dados estatísticos, com denominações que o restringem a consumidores ou portadores de determinado poder de compra assustam-nos. A que preço esse progresso, essa crença no poder do conhecimento, da informação, enfim, da razão, é válida realmente? Será que o sistema ao qual escolhemos está realmente avançando a humanidade? Ou será que o ser humano perdeu sua humanidade?

O objetivo da vida é ser feliz?

  Decerto a experiência humana nos impõe uma ideia de que tanto o prazer como um estado de felicidade associados de algum modo devem ser tom...