Quem é esse filosofante?

Como o próprio título do blog indica, estas palavras não são fruto de uma vontade que segue os moldes convencionais da escrita filosófica acadêmica eivada de rigor dito científico ou metodológico, pelo contrário, são palavras de um espírito espontâneo acompanhado de uma sutil percepção filosófica. Por isso a negação da nomenclatura "filósofo", mas sim, "filosofante". Contudo, este mesmo espírito traz em seu âmago a essência de toda boa filosofia: a crítica. Aqui estão palavras sinceras, às vezes ríspidas, às vezes acalentadoras, mas que jamais se distanciarão do objetivo maior deste blog que é o de servir como desabafo, como "válvula de escape", para um espírito irrequieto e sobretudo infinito buscante da verdade...

quinta-feira, 7 de maio de 2015

A Palavra do Senhor II

Tenho que tratar desse tema novamente. Faz-se mais do que necessário compartilhar essas experiências. Óbvio que são, em um determinado momento hilárias, mas não deixam de suscitar uma reflexão reincidente.

Lá estava em casa de minha mãe quando surge à porta os tão famigerados "queima-panela", apelido "carinhoso" atribuído aos religiosos da Igreja Testemunha de Jeová bastante comum por essas paragens - o velho preconceito religioso que ainda resiste por essa região. Como de costume em minha família, alguém, para se livrar o mais brevemente possível desses "missionários", sugere que eu vá recebê-los. Confesso que inicialmente não gostava muito, mas com o tempo passei a sentir um pouco de satisfação ao fazer isso, pois, o que mais me fascina nesse tipo de experiência, é ver a cara de espanto desses "discípulos de Jesus" quando falo de coisas que para eles soam como tabu.

A forma de abordagem parece ser sempre a mesma: perguntam logo se a pessoa visitada compreende o porquê das desgraças que acometem o mundo na atualidade - como que se o mundo já teve um tempo duradouro de paz e tranquilidade - e em seguida lhe impõe a pergunta se a pessoa visitada lê a Bíblia. Em um outro momento já vão abrindo a Bíblia e mostrando em que parte deste livro se encontra a "passagem reveladora" que irá demonstrar laconicamente a razão de um mundo estar como está. É aí que eu os surpreendo...

Ao me perguntar, o jovem aparentemente de trinta anos, se eu acreditava nas palavras da Bíblia, ele crente de que a resposta seria sim, digo-lhe que não... Pronto. Desarma-se o rapaz e sua face é de um susto ensurdecedor que o faz, inclusive, refazer a pergunta: "...Você não acredita em Deus?" E de novo lhe respondo com um sorriso sarcástico já esboçado no canto da boca: "Não. Eu não acredito na palavra do Senhor..." Por dentro estou às gargalhadas ao ver os olhos saltitantes do jovem catequizador e espero ansiosamente a pergunta que vem logo em seguida: "Mas... Por quê?" Olhando nos olhos dele, respondo que, para mim, a Bíblia é um livro amaldiçoado pois não trouxe paz para a humanidade, pelo contrário, só desavenças. Respondo que a Palavra de Deus em verdade é a palavra de um padre ou de um pastor que diz estar com A Verdade, mas que na realidade nenhum deles a tem, pois, se assim fosse, não existiriam tantas religiões no mundo que se autoproclamam detentoras dessa suposta verdade. Insisto que A Verdade não existe! É uma mera convenção - como nos diriam os sofistas.

"Mas o senhor já leu a Bíblia?" Respondo que sim, e várias vezes. Li quando fora católico, li quando fora evangélico, espírita, e não encontrei essa verdade da qual me falaram. Na realidade vi apenas religiões almejando mais poder, mais dinheiro, mais riqueza. Embora todos falassem muito em bondade, na prática o que vi fora o contrário: padres perseguidores a um determinado grupo da própria igreja, padres preocupados em aumentar a renda da sua igreja, pastores que espalhavam o terror ou o preconceito às religiões que não aceitassem a Bíblia como livro elementar, pastores mais preocupados em aumentar seus domínios de influência do que necessariamente propagar a dita "Palavra de Deus"...

Em desespero, o jovem retruca: "Mas o senhor há de convir que do jeito que este mundo está , nós todos seremos julgados no dia do Apocalipse!". Eu respondo de imediato: "Oxalá!". Pronto, a pobre coitada que o acompanha dá um passo pra trás crente que estou invocando uma entidade demoníaca! "Se o mundo um dia se acabar como vocês estão dizendo, então, creio, teremos um final feliz! E duvido muito que Satanás vá querer uma porrada de gente lá no inferno e que o céu fique vazio..." Quando termino de dizer isso, os dois agora dão um passo para trás... Agora sim eles pensam que eu sou o próprio Satanás porque me veem sorrindo...

Meio assustados, eis que o jovem mancebo pergunta numa última tentativa ainda desesperadora de compreender aquela situação: "Vejo que o senhor gosta de argumentar, o senhor gosta de ler?" Cruzando os braços e segurando mais o riso, respondo: "Sim, pois sou formado em filosofia." Nesse instante parece que todo o medo se esvaiu, pois ambos me fitaram e a pobre coitada, outrora calada, fala: "Ah, tá explicado..." Deixei de ser o Capeta e virei um maluco, agora. Digo: "gosto muito de ler e foi através da leitura que descobri as verdadeiras verdades por trás das religiões, principalmente as ocidentais... Você já leu algum livro de filosofia?" Com um olhar convencido, infla um pouco o peito e responde: "sim, a Bíblia". Respiro fundo e faço outra pergunta: "você sabe o que é fundamentalismo?", e ele responde ajeitando o chapéu: "sim. São aquelas pessoas que não são cristianizadas". Seguro um sorriso e aguardo eles concluírem o assunto...

"Bom, se o senhor quiser nos conhecer melhor, nós temos cultos aos sábados e aos domingos às sete da manhã e às sete da noite. Vamos deixar um folheto com o senhor no qual o senhor verá o poder da Palavra de Deus"... Agradeço suspirando profundamente e o sarcasmo inicial transforma-se em indignação...

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

O ser humano precisa ser salvo de quê ou de quem?

Hoje senti uma inquietação que jamais havia sentido antes! Uma pergunta veio até meu pensamento que me deixou intrigado, confuso e bem angustiado - mais de uma para a coleção! Vivemos em uma época de crises de valores, de perspectivas, sobretudo política ou ideológica, na qual o ser humano não consegue mais encontrar uma referência sólida, inabalável, que lhe oferte uma segurança necessária para que ele mesmo consiga iniciar a tão laboriosa busca de si mesmo. Nem a religião, a mais antiga das bases referenciais humanas consegue ser tão inabalável. Por isso minha inquietação: será que o ser humano tem "salvação"?

As dúvidas e questionamentos quanto a essa possibilidade de salvação do ser humano tomam meu espírito que não consegue, contudo, sequer criar uma justificativa cabível que me convença da necessidade de se salvar o ser humano de sua atual condição! Certo que este texto pode configurar-se pessimista - que o seja! - mas que não podemos negar essa condição de a humanidade parecer estar sem rumo, isso sim me toma como um fato inegável.

A todo instante somos bombardeados com notícias e mais notícias de corrupção, de desrespeito aos direitos humanos, de violência, de terrorismo, de fundamentalismo, de crises financeiras... Daí me aparece um indivíduo e diz que temos uma solução quanto a esse quadro: "desligue a televisão", ele diz. Piora mais ainda, pois a sensação de alienação ou de não estar nem aí com o mundo em ruínas a nossa volta tende a aumentar um sentimento de estar fazendo a coisa errada também...

Como simplesmente fechar os olhos para nossa realidade, para essa realidade tão obscura e ao mesmo tempo tão cruel? Admito que parece clichê, mas ir para uma igreja e simplesmente orar para que uma entidade metafísica possa solucionar nossos problemas não me parece o mais apropriado. Ir a um cinema e ficar colecionando peças de personagens de filmes acreditando estar vivendo aquela  realidade ficcional com o objetivo simples de consumo também não me parece apropriado. Se fechar no mundinho de partidarismos políticos com visões tacanhas de determinadas ideologias, piorou. Por isso a pergunta: que fazer?

Quando se é jovem parece que o mundo todo está a seus pés. Basta-lhe um punhado de ideiazinhas para lhe dar um chão que o indivíduo se acha pleno. Mas, basta-lhes alguns anos e um certo grau de cultura - de maturidade - para se perceber que esse chão de outrora é movediço. A humanidade, os seres humanos, estou cada vez mais convencido disso, é um caso perdido! O único animal da Terra que tem a capacidade de transformar a natureza e, no entanto, é o que mais a destrói; é o único animal na face da terra que tem a sagacidade de elaborar palavras e daí criar discursos, mas o faz para perseguir, para maltratar ou até destruir argumentativamente seu semelhante acreditando ser o "dono da verdade"; o único animal da face da terra que se acha superior aos demais - inclusive a si mesmo - e por isso se vê no direito "natural" de dominar ou violentar o diferente.

Como, então, diante de uma realidade dessas dizer ou afirmar que a humanidade tem "salvação"? Alguém pode dizer: "mas o ser humano sempre foi assim desde suas origens e o mudo continua aí..." Eis que eu digo: e isso é reposta? Isso é alguma justificativa? Então eu sou de algum modo obrigado a aceitar essa situação e simplesmente "deixar a vida me levar"? Lidar com o ser humano é uma arte! Não que eu esteja desvalorizando a arte, mas faço referência às incontáveis dificuldades que é lidar com pessoas - portanto seres humanos racionais dotados de um polegar - que afirmam que sempre existiu e sempre existirá aquele que vive bem e o que vive mal, ou seja, o explorador e o explorado; que, embora tenham passado por um curso "superior", admitem que a violência entre crianças deva ser incentivada; que a sociedade deva ser comandada por pessoas que desrespeitam os direitos humanos elementares.

Admito que parece um discurso extremamente pessimista, mas o ser humano, em sua condição geral, aliás, como já nos dissera o velho Schopenhauer, está fadado ao sofrimento. Por que então lutar contra isso? Por que então não aceitar tal condição, abraçá-la, senti-la em sua profundidade. Talvez, quem sabe, o ser humano pudesse até entender a efetiva "felicidade".

"Esse é o pior dos mundos possíveis. Com todas as suas variantes e diferenças, com toda a sua multiplicidade, durante o seu desenvolvimento, a realidade íntima do mundo e do homem é sempre a mesma vontade onipotente; a própria história é sempre a repetição do mesmo acontecimento sob aparências diversas: a vontade de viver determinando o sofrimento como condição humana: VIVER É SOFRER..." (A. Schopenhauer).