Quem é esse filosofante?

Como o próprio título do blog indica, estas palavras não são fruto de uma vontade que segue os moldes convencionais da escrita filosófica acadêmica eivada de rigor dito científico ou metodológico, pelo contrário, são palavras de um espírito espontâneo acompanhado de uma sutil percepção filosófica. Por isso a negação da nomenclatura "filósofo", mas sim, "filosofante". Contudo, este mesmo espírito traz em seu âmago a essência de toda boa filosofia: a crítica. Aqui estão palavras sinceras, às vezes ríspidas, às vezes acalentadoras, mas que jamais se distanciarão do objetivo maior deste blog que é o de servir como desabafo, como "válvula de escape", para um espírito irrequieto e sobretudo infinito buscante da verdade...

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Os Parlamentares e o povo ou precisamos ler Voltaire!

Nos últimos dias, na mídia em geral, está em discussão o que um parlamentar dissera a sua colega em pleno espaço de trabalho. Não vou citar nomes aqui para não realizar uma suposta defesa - ou não - de parlamentar A ou B. Meu objetivo aqui é apenas tentar mostrar no viés de um filosofante, com certo distanciamento, as ideias ou implicações que o referido acontecimento causou à minha percepção.

Casos são incontáveis pelas câmaras, assembleias e plenários do nosso país desse tipo. Indivíduos, políticos, eleitos pelo povo - frise-se bem isso: eleitos pelo povo - a bradarem opiniões até então jamais vistas pela nossa infante democracia. Discursos que envolvem muitos absurdos, discursos reacionários, ditatoriais, impositivos, preconceituosos, fundamentalistas, religiosos etc...

Diante desse quadro, pode-se concluir também que nunca em nossa história falou-se e divulgou-se tanto aquilo que os nossos representantes políticos dialogam ou discutem em seus respectivos ambientes de trabalho, seja com a ajuda da televisão ou da Internet ou dos impressos em geral.

É inegável que na atualidade praticamente tudo que se é dito e devidamente registrado por algum tipo de mídia no local de trabalho desses nossos parlamentares ganha repercussão às vezes momentânea ou às vezes mais duradoura. Em alguns casos repercutem com alguma consequência e em outros não trazem consequência alguma, a não ser o simples fato da aparição, de chamar a atenção, de ganhar uns breves minutos de fama.

Tem-se a impressão de que a necessidade de estar na mídia é fundamental para as atividades políticas. Mostrar alguma coisa na televisão ou nos impressos ou na Internet tornou-se uma obrigatoriedade de alguns parlamentares que vêem nisso um trampolim para mostrar que são "atuantes". Mas, afinal, o que é ser um político atuante? No meu entender, o político atuante, seja ele do poder legislativo ou executivo, deve ficar restrito inicialmente às suas obrigações elementares, por exemplo, os do poder legislativo, criar leis ou discuti-las visando o bem da nação. É um clichê bradado aos quatro cantos do país que, de alguma forma, legitima a incursão de qualquer indivíduo no meio político. Mas não vem ao caso aqui um suposto aprofundamento.

Contudo, parece que esses parlamentares ávidos por mostrarem suas "atuações" não reconhecem ou não admitem essa regra elementar atribuída a eles. Seus aparecimentos, ainda que momentâneos, seus destaques enfatizados pela mídia em geral, pela grande mídia, são suas opiniões reacionárias, preconceituosas, religiosas... que, na realidade, apesar de tudo, representam uma parcela da população que os elegeu! O político X que é contra o casamento homossexual, por exemplo, é um "avatar" dos indivíduos que depositaram seu voto de confiança nele ou no partido dele - o que é relativamente incipiente em nossa cultura, votar em algum candidato pelo partido. A mídia em geral, a grande mídia, enfatiza a opinião em muitos casos assustadora, que gera repercussão ou comoção.

Democracia é isso. Não pretendo julgá-la detalhadamente, mas, em seu cerne, os vários discursos reacionários, humanistas, religiosos, ateus, escravocratas ou libertadores devem co-existir, inclusive o discurso anti-democrático e seu oposto! Essa "confusão" de ideologias, de opiniões e consequentemente de partidos é o que efetivamente dá corpo a isso que chamamos de "democracia", é seu modus operandi. O problema é que nossa cultura, talvez influenciada profundamente pela grande mídia, não criou ainda o hábito ou pelo menos não nos apontou o indício do que é viver democraticamente. Nós, brasileiros, não criamos ainda uma cultura - ou não conseguimos - de saber respeitar a opinião do outro e daí querermos, inclusive, em alguns casos, responder com algum tipo de violência à pessoa que não concorda com o nosso ponto de vista.

Assusta sim a quantidade de discursos reacionários ou fundamentalistas que vem surgindo entre esses nossos representantes - eleitos por nós! - que bradam aos quatro cantos do país - graças à nossa mídia - suas opiniões extremamente desconcertantes para com uma cultura efetivamente humanitária e democrática. Não sei se isso é um bom sinal, mas que dá a entender que possivelmente podemos estar caminhando para um governo com os mesmos caracteres desses senhores que não reconhecem o valor democrático de suas funções e que ainda por cima encontram certo respaldo em uma parcela da população! Dá medo sim saber que exitem pessoas que acreditam que um governo ditatorial, fundamentalista ou reacionário seja a solução para nossos problemas político-econômicos, por exemplo. Parece que nos esquecemos da máxima do filósofo francês Voltaire quando contribuía para o fortalecimento das bases para o surgimento da democracia afirmando que "posso não concordar com nenhuma das palavras que você disser, mas defenderei até a morte o direito de você dizê-las".