Quem é esse filosofante?

Como o próprio título do blog indica, estas palavras não são fruto de uma vontade que segue os moldes convencionais da escrita filosófica acadêmica eivada de rigor dito científico ou metodológico, pelo contrário, são palavras de um espírito espontâneo acompanhado de uma sutil percepção filosófica. Por isso a negação da nomenclatura "filósofo", mas sim, "filosofante". Contudo, este mesmo espírito traz em seu âmago a essência de toda boa filosofia: a crítica. Aqui estão palavras sinceras, às vezes ríspidas, às vezes acalentadoras, mas que jamais se distanciarão do objetivo maior deste blog que é o de servir como desabafo, como "válvula de escape", para um espírito irrequieto e sobretudo infinito buscante da verdade...

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Era do conhecimento ou da desumanização?

Vivemos em um mundo cada vez mais repleto de informações, isso é fato e até se tornou clichê. A quantidade delas tende a cada vez mais aumentar de maneira tão intensa e às vezes assustadora que sequer conseguimos criar um tempo para acompanha-la a contento. Deve-se, sobretudo, ao avanço das comunicações em especial a Internet. Um mundo intenso que exige cada vez mais de nós um time diferenciado senão ficaremos para trás. Para se ter um emprego: conhecimento, se específico e mais atualizado da profissão, ótimo. Para adentrar uma universidade, e aqui refiro-me ao Brasil (ENEM, por exemplo): mais conhecimento e o aluno se vê obrigado a não parar seus estudos se pretende ter uma boa qualidade de vida - muito embora haja algumas controvérsias a esse respeito. Até para viver, desde a mais tenra idade, a criança está fadada a buscar mais e mais conhecimento, mais informação! Não há tempo para brincadeiras - perda de tempo! -, o time is money tornou-se um mantra pelo qual todos devemos seguir diuturnamente.


A título meramente ilustrativo: recentemente aqui em meu estado, uma criança, ou melhor, um adolescente, com seus recém concluídos 15 anos de vida, ingressa no concorridíssimo curso de medicina da universidade federal de Sergipe. Os amigos, parentes, conhecidos e principalmente a imprensa exaltaram-no como grande herói por ter realizado um feito que muitos jovens e adultos, inclusive, sequer chegaram perto de uma colocação boa como excedentes - conheço um monte de colegas assim. Não que esteja desmerecendo-o, longe de mim! Reconheço o feito que ele conquistou com muito suor, mas o fato é: a que preço? Esse exemplo é apenas mais um sintoma de algo latente legado a nós pela promessa da modernidade.

A sociedade pós-industrial ou a Era da Informação também possui em seu cerne uma sociedade que valoriza bastante a informação, o conhecimento. Em parte soa até como algo bom, positivo. Mas, atrelado a isso vem os exageros, a desmesura. Sacrifica-se o período lúdico essencial para a formação plena de um adulto, por exemplo. A brincadeira pela brincadeira apenas soa hoje quase que como um crime, principalmente no seio das famílias de classe média. Para manter-se com certo status social faz-se necessário sacrificar brincar de esconde-esconde ou até mesmo de video-game e obrigatoriamente pensar em um futuro promissor financeiramente falando. Não se pode perder tempo com frivolidades. Tudo deve estar devidamente planejado para que não se perca o sucesso financeiro de vista! Vê-se a criança como um investimento, um futuro médico, um futuro advogado ou engenheiro - quase nunca um futuro professor! E isso envolve ainda um outro problema também sério: a qualidade dos conteúdos adquiridos...

De que me adianta ter o domínio perfeito sobre uma determinada área de conhecimento se não consigo refletir o todo, a função desse conhecimento adquirido ou ainda a consciência da relação que esse conhecimento terá para com a sociedade, a comunidade da qual faço parte? E aí me reporto a uma frase pichada no muro de uma universidade que simboliza um manifesto artístico além, é claro, de filosófico: "seu conhecimento serve a quem?".

Essa qualidade das informações ou dos conhecimentos adquiridos reflete no profissional de algum modo. Claro que vai depender também de certo poder de criatividade do portador ou requerente desse conhecimento para adaptar o que foi aprendido. Mas vemos casos e mais casos nos meios de comunicação de médicos ou advogados - e isto se aplica a qualquer profissão - sem escrúpulos ou que cometem atrocidades inimagináveis para a profissão que foi escolhida. Médicos "incapazes" de ajudar um paciente que não pertença a um plano de saúde; advogados que "protegem" por "obrigação da profissão" réus confessos ou que se envolvem em crimes de seus próprios clientes; engenheiros que estão mais preocupados em receber um "bônus financeiro" para reduzir os custos de uma obra e despreocupar-se com a segurança da construção... São incontáveis os exemplos e óbvio que não estou especificando qual profissão seja a mais corrupta, apenas apontando que em qualquer profissão existe aquele indivíduo que não consegue reconhecer/refletir a respeito de seu papel presente na escolha profissional realizada e a relação que essa escolha possui com a comunidade da qual faz parte.



Max Horkheimer e Theodor Adorno, expoentes da Escola de Frankfurt.

Lembremos do nazi-fascismo e da crítica filosófica realizada por Adorno e Horkheimer a respeito dos avanços científicos realizados, em especial pelos alemães adeptos a Hitler em detrimento da liberdade dos judeus e a favor de sua opressão. Em nome do avanço da ciência, podia-se dissecar um judeu vivo contra a sua vontade, por exemplo. E a vida desse judeu, ou melhor, desse ser humano? Parece-nos que o conhecimento transmitido não possui uma ligação com o ser do ser humano.

O ideal da modernidade, de subjetividade ou de valorização da razão foi completamente deturpado e assim desviado do seu principal objetivo que era o de oferecer um mundo melhor aos seres humanos. Máquinas de matar são inventadas sem a menor reflexão sobre seu objetivo principal. Remédios para cura de doenças que ainda assolam os seres humanos são comercializados apenas pelo grau de valorização financeira ou quais mercados eles poderão oferecer maiores lucros. A fome que tanto assola os países pobres é combatida com doações simbólicas e pontuais de órgãos internacionais ou não e que têm que conviver com as estatísticas dos desperdícios dos países mais ricos cada vez mais alardeados aos quatro cantos do mundo. Exemplos não nos faltam dos avanços e retrocessos que o projeto da modernidade legou aos seres humanos espalhados pelo mundo afora. Isso sem comentar os problemas ambientais também causados por esse avanço do conhecimento inconsequente.

Campo de concentração (ou extermínio) de Auschwitz.

Vivemos sim em uma época na qual os estudiosos se digladiam em tentar denomina-la de era da informação, pós-industrial ou da globalização entre outras. Os termos, apesar de distintos, parecem convergir para um novo sentido de humanidade, mas, sem dúvida, uma humanidade que assusta, que preocupa. Uma humanidade que faz um indivíduo tratar seu semelhante com desprezo, com asco, com distanciamento ou até mesmo como simples fonte de renda. Conceitos novos e realizações científicas inovadoras encantam e encantarão sempre a humanidade. A quantidade de conhecimento que um ser humano mediano pode ter acesso é fantástica e ao mesmo tempo assustadora. A qualidade das informações muitas vezes não é discutida.  Humanos que são confundidos com dados estatísticos, com denominações que o restringem a consumidores ou portadores de determinado poder de compra assustam-nos. A que preço esse progresso, essa crença no poder do conhecimento, da informação, enfim, da razão, é válida realmente? Será que o sistema ao qual escolhemos está realmente avançando a humanidade? Ou será que o ser humano perdeu sua humanidade?

quinta-feira, 11 de junho de 2015

A ciência prova a existência de Deus?

Ao final de uma aula de filosofia, sou acometido por três alunos que concluíram a atividade que houvera passado e que me perguntam ávidos e com o semblante incendiado: "professor, o senhor é ateu mesmo?" O tema da aula em questão fora sobre as teorias filosóficas que abordam o tema da verdade nos filósofos pré-socráticos, em especial Heráclito e Parmênides. Introdutoriamente, falara com os alunos que o surgimento dessa nova forma de pensar originada por esses filósofos se deve ao fato de eles deixarem de lado a explicação baseada no mito ou na crença e terem se utilizado única e exclusivamente da razão como instrumento para explicação da realidade - a busca pelo princípio teórico das coisas, a arkhé, em grego. Não sei porque cargas d'água, de repente estávamos falando que a religião está, sob certo aspecto, intrinsecamente envolvida com o mito; diria até que a religião necessita do mito para existir enquanto tal; e comecei a explicitar a mitologia cristã que, embora alguns autores de filosofia possuam um enorme receio em colocar em seus manuais que nossa cultura possui uma relação com essa mitologia, resolvi encarar o desafio de mostrar aos alunos.

Por mais que esboçasse que o mito não poderia ser tratado como algo mentiroso, como uma narrativa simplesmente fantasiosa ou fantástica; por mais que tentasse mostrar a importância que o mito possui ao criar uma identidade para com uma determinada cultura, ainda assim alguns alunos resistiam em aceitar a ideia de que o mito não é uma explicação baseada na razão, mas sim na crença. Percebi que justamente os alunos mais resistentes a essa concepção são justamente os que frequentam igrejas protestantes ou evangélicas quando um deles me atira a seguinte pergunta: "o senhor é católico?" e de imediato, na mesma proporção com que me lançaram a pergunta, respondo que não. Ao término da explanação oral passo uma atividade e, à medida que forem concluindo, estariam liberados para sair, menos esses três que preferiram conversar comigo sobre minha suposta religiosidade.

"Professor, fale sério, o senhor é ateu mesmo?" Na sala de aula, com minha pouca experiência adquirida, resolvi não abordar muito esse tema justamente para evitar possíveis atritos que alguns alunos poderiam suscitar por acreditarem que, pelo fato de eu não possuir religião, pudesse perseguir aquele que se diz muito religioso. E aí, de uns tempos para cá, vinha assumindo uma postura de agnóstico - um "ateu light", e bote aspas nisso! - que acredita em uma força superiora que é indescritível ou incompreensível pela nossa limitada mente. Porém, e reconheço que talvez tenha sido meu erro, resolvo assumir de vez meu ateísmo diante deles: "Sou ateu!". E eis que sou agraciado com uma pérola argumentativa: "Não consigo imaginar como alguém pode viver sem Deus, professor. O senhor possui alguma doença mental?" Se essa aluna não tivesse feito essa pergunta com um leve senso de humor, juro que me sentiria ofendido e aí partiríamos para a seara da justiça. "Não, não, minha linda, simplesmente não consigo acreditar em Deus ou nessa coisa que vocês adoram em suas igrejas..."

"Mas, professor..." um segundo aluno vem ajudar na argumentação da colega e arremata com a segunda pérola argumentativa: "a ciência prova a existência de Deus. Muitos cientistas  já conseguiram isso!" Meu susto é notadamente percebido por outros alunos que observavam na sala aquela situação. "Quem foram esses cientistas? Me diga o nome de pelo menos um deles para que eu possa investigar, porque, até onde eu sei, a ciência não se envolve com assuntos da religião, com o "objeto" da religião, e, mesmo que ela tentasse - como já o fez em outras épocas - ela não poderia oferecer um resultado confiável... A ciência é um conhecimento originado pura e simplesmente da razão humana e não da crença ou da fé. Se assim o fosse deixaria de ser ciência e passaria a ser religião". Eles se calam por um instante até que a terceira que não havia falado ainda lança a terceira perola: "mas, professor, a prova da existência de Deus está nas coisas que ele criou como as plantas, as montanhas, os animais e até mesmo o ser humano..." Pra sacanear respondo: "tem registrado isso que você me falou em cartório, com a assinatura de Deus e firma reconhecida?". Aí vem o outro com outra pérola: "Deus criou todas as coisas boas do mundo, Deus é o bem maior". "Oxente? Mas Deus não teria criado tudo no planeta, aliás, no universo? Como é que ele criou apenas as coisas boas?", "não, professor, Ele criou as coisas boas e Satanás as coisas más". Comecei a rir alto atrapalhando o restante da turma, não pude me conter...

"Vamos lá: então vocês raciocinem comigo por um instante. Deus fez todas as coisas. É o Ser originalmente superior a todos e a tudo, concordam?" Os três se entreolham e balançam a cabeça concordando. "Diria mais: Deus é tão poderoso, mas tão poderoso que teria criado também o próprio Satanás, não é isso?", novamente concordam e um deles reforça meu argumento concluindo que Satanás fora um anjo antes de ser o rei do inferno. "Perfeito. Satanás é uma criação de Deus, concordam?" Concordam com os olhos esbugalhados. "Se Deus criou Satanás, e Satanás é a encarnação do mal em si, então Deus também criou o mal!", pronto, tomaram um susto e começaram a olhar para os lados em busca de uma explicação.
Santo Agostinho Por Simone Martini, atualmente no Museu Fitzwilliam, em Cambridge
"Professor, o senhor tem que conversar com o nosso pastor. Ele vai explicar para o senhor direitinho essas coisas...". Opa! Notei então que minha argumentação surtiu algum efeito. Eles ficam em dúvida. Resolvo ajudá-los: "Se serve de consolo, posso dar a vocês a explicação de um filósofo da Idade Média, chamado santo Agostinho, que solucionou este problema pelo qual vocês estão atravessando agora. Dizia o filósofo africano que o mal em si não existe, portanto, realizando uma elucubração, Satanás não existe. O que existe de fato é um afastamento da criatura em relação ao seu Criador, ou seja, o ser humano se afasta de Deus quando comete atos que são desaprovados por Ele. O pecado não é um mal em si, mas um afastamento do homem para Deus e, quanto mais atos maléficos o ser humano realizar, mais ele se tornará "mau", afastado de Deus. Deus realmente criou tudo e deu ao ser humano o livre-arbítrio, a capacidade de escolher se ele quer se aproximar de Deus ou não - salientando que antes de realizar tal ato, de afastar-se ou de aproximar-se, Deus já está ciente de tudo, por isso sua 'onisciência'".

O rapazinho solta um sorriso meio desconfiado pelo canto da boca e retruca: "viu aí, professor, que o senhor já sabe a resposta? Deus existe sim, ele é a personificação de tudo que é bom". Minha vez de argumentar: "para santo Agostinho, sim, em termos. Deus é o sumo Bem. É a 'essência' de todas as coisas no universo, o Uno, o princípio, mas, lembremos que santo Agostinho não é o único filósofo da tradição. Existiram e ainda existem muitos outros que desacreditam de sua concepção. Se bem que na contemporaneidade, não conheci nenhum filósofo notável que se debruçasse sobre Deus. Até porque acredito que já seja um tema mais que discutido e consequentemente quase suplantado". Uma delas, a mais calada das duas, respira fundo e me diz: "aos sábados pela manhã temos culto às sete e à noite também às sete...". Sorrio pelo canto da boca e eles saem.