Quem é esse filosofante?

Como o próprio título do blog indica, estas palavras não são fruto de uma vontade que segue os moldes convencionais da escrita filosófica acadêmica eivada de rigor dito científico ou metodológico, pelo contrário, são palavras de um espírito espontâneo acompanhado de uma sutil percepção filosófica. Por isso a negação da nomenclatura "filósofo", mas sim, "filosofante". Contudo, este mesmo espírito traz em seu âmago a essência de toda boa filosofia: a crítica. Aqui estão palavras sinceras, às vezes ríspidas, às vezes acalentadoras, mas que jamais se distanciarão do objetivo maior deste blog que é o de servir como desabafo, como "válvula de escape", para um espírito irrequieto e sobretudo infinito buscante da verdade...

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

O ser humano precisa ser salvo de quê ou de quem?

Hoje senti uma inquietação que jamais havia sentido antes! Uma pergunta veio até meu pensamento que me deixou intrigado, confuso e bem angustiado - mais de uma para a coleção! Vivemos em uma época de crises de valores, de perspectivas, sobretudo política ou ideológica, na qual o ser humano não consegue mais encontrar uma referência sólida, inabalável, que lhe oferte uma segurança necessária para que ele mesmo consiga iniciar a tão laboriosa busca de si mesmo. Nem a religião, a mais antiga das bases referenciais humanas consegue ser tão inabalável. Por isso minha inquietação: será que o ser humano tem "salvação"?

As dúvidas e questionamentos quanto a essa possibilidade de salvação do ser humano tomam meu espírito que não consegue, contudo, sequer criar uma justificativa cabível que me convença da necessidade de se salvar o ser humano de sua atual condição! Certo que este texto pode configurar-se pessimista - que o seja! - mas que não podemos negar essa condição de a humanidade parecer estar sem rumo, isso sim me toma como um fato inegável.

A todo instante somos bombardeados com notícias e mais notícias de corrupção, de desrespeito aos direitos humanos, de violência, de terrorismo, de fundamentalismo, de crises financeiras... Daí me aparece um indivíduo e diz que temos uma solução quanto a esse quadro: "desligue a televisão", ele diz. Piora mais ainda, pois a sensação de alienação ou de não estar nem aí com o mundo em ruínas a nossa volta tende a aumentar um sentimento de estar fazendo a coisa errada também...

Como simplesmente fechar os olhos para nossa realidade, para essa realidade tão obscura e ao mesmo tempo tão cruel? Admito que parece clichê, mas ir para uma igreja e simplesmente orar para que uma entidade metafísica possa solucionar nossos problemas não me parece o mais apropriado. Ir a um cinema e ficar colecionando peças de personagens de filmes acreditando estar vivendo aquela  realidade ficcional com o objetivo simples de consumo também não me parece apropriado. Se fechar no mundinho de partidarismos políticos com visões tacanhas de determinadas ideologias, piorou. Por isso a pergunta: que fazer?

Quando se é jovem parece que o mundo todo está a seus pés. Basta-lhe um punhado de ideiazinhas para lhe dar um chão que o indivíduo se acha pleno. Mas, basta-lhes alguns anos e um certo grau de cultura - de maturidade - para se perceber que esse chão de outrora é movediço. A humanidade, os seres humanos, estou cada vez mais convencido disso, é um caso perdido! O único animal da Terra que tem a capacidade de transformar a natureza e, no entanto, é o que mais a destrói; é o único animal na face da terra que tem a sagacidade de elaborar palavras e daí criar discursos, mas o faz para perseguir, para maltratar ou até destruir argumentativamente seu semelhante acreditando ser o "dono da verdade"; o único animal da face da terra que se acha superior aos demais - inclusive a si mesmo - e por isso se vê no direito "natural" de dominar ou violentar o diferente.

Como, então, diante de uma realidade dessas dizer ou afirmar que a humanidade tem "salvação"? Alguém pode dizer: "mas o ser humano sempre foi assim desde suas origens e o mudo continua aí..." Eis que eu digo: e isso é reposta? Isso é alguma justificativa? Então eu sou de algum modo obrigado a aceitar essa situação e simplesmente "deixar a vida me levar"? Lidar com o ser humano é uma arte! Não que eu esteja desvalorizando a arte, mas faço referência às incontáveis dificuldades que é lidar com pessoas - portanto seres humanos racionais dotados de um polegar - que afirmam que sempre existiu e sempre existirá aquele que vive bem e o que vive mal, ou seja, o explorador e o explorado; que, embora tenham passado por um curso "superior", admitem que a violência entre crianças deva ser incentivada; que a sociedade deva ser comandada por pessoas que desrespeitam os direitos humanos elementares.

Admito que parece um discurso extremamente pessimista, mas o ser humano, em sua condição geral, aliás, como já nos dissera o velho Schopenhauer, está fadado ao sofrimento. Por que então lutar contra isso? Por que então não aceitar tal condição, abraçá-la, senti-la em sua profundidade. Talvez, quem sabe, o ser humano pudesse até entender a efetiva "felicidade".

"Esse é o pior dos mundos possíveis. Com todas as suas variantes e diferenças, com toda a sua multiplicidade, durante o seu desenvolvimento, a realidade íntima do mundo e do homem é sempre a mesma vontade onipotente; a própria história é sempre a repetição do mesmo acontecimento sob aparências diversas: a vontade de viver determinando o sofrimento como condição humana: VIVER É SOFRER..." (A. Schopenhauer).

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

CRÔNICAS DE UMA BARBEARIA II

Dona Aldegunda, seu Paulo e as leis

Dona Aldegunda era uma funcionária pública exemplar. De família tradicional na pequena cidade de Enforcados, sempre esteve de algum modo envolvida com os grandes acontecimentos da pacata cidadezinha. E foi graças a essa convivência com os personagens mais conhecidos de Enforcados que ela conseguiu seu emprego público e, posteriormente, um cargo de chefia no setor onde trabalha a mais ou menos vinte anos. Casada com Paulo, sessenta e poucos anos, homem simples, funcionário municipal aposentado, a mais de trinta anos aceita a personalidade forte de sua esposa e vive à sombra dela. Não é de briga, calmo, parcimonioso, frequentador contumaz da barbearia de seu Oswaldo, senta-se à cadeira de espera e dá um bom dia timidamente a seu Oswaldo e ao cliente que está por terminar de cortar o cabelo.
- Bom dia, seu Paulo!Tudo bem com o senhor? Responde seu Oswaldo.
O homem sentado à cadeira do barbeiro observa pelo reflexo do espelho seu Paulo balbuciar alguma coisa logo após as palavras de seu Oswaldo e, curioso, pergunta-lhe:
- O senhor disse alguma coisa?
O olhar de seu Paulo se espanta, ele observa com maior profundidade para o homem sentado à cadeira do barbeiro e retruca:
- Não, meu amigo, não, não... Só estava pensando cá com meus botões...
Seu Oswaldo nota o clima um tanto tenso após a chegada de seu Paulo. O homem sentado à cadeira é o Firmino, conhecido na cidade por ser marchante, açougueiro e ter uma banca na feira. Meio rude, embrutecido talvez pela ocupação escolhida, carregava logo abaixo do nariz um bigode de destaque que lhe cobria a boca, mas que estava devidamente aparado. Ficou no ar a impressão de que Firmino conhecia alguma coisa de seu Paulo e com isso guardava também algum rancor. O pacato Paulo sentiu o clima esquisito que se iniciou e, como de costume, prefere se afastar de situações desconfortáveis:
- Oswaldo, passarei aqui mais tarde... Vou resolver um negócio e volto já...
- Vá em paz...
Assim que seu Paulo some da barbearia, Firmino fala:
- Isso lá é um homem que se respeite! Um pobre diabo desse que vive às custas daquela desgraçada que ele tá casado...
Seu Oswaldo, um pouco assustado, retruca:
- Oxente, cabra!? Por quê?
- A peçonhenta da esposa dele! Aquela mulé não vale o que o gato enterra! E ele é cúmplice dela por deixar ela fazer as asneiras que faz...
- Vixe... E o que foi que ela fez de tão má assim pro senhor?
- Aquela fia duma égua aprontou uma comigo da peste... Acabou com um dinheirinho que eu recebia pelo governo pra ajudar apenas os puxa-saco dela que ela chama de amigo. Pra mim botou pra lascar, pros amigo ajudou... Só vivia dizendo "vamos respeitar as leis! Temos que respeitar as leis!", pra cima dos que não era amigo dela... Era uma fia duma égua mermo...
Seu Oswaldo, de praxe, tentou ser o mais cuidadoso possível pois sabia sim da fama de dona Aldegunda e preferiu não perguntar mais nada ao Firmino deixando que ele falasse o que quisesse, como ele se calou, o silêncio imperou no ar até que o velho barbeiro interrompeu dizendo que o corte já havia concluído. Firmino paga-lhe o devido valor e sai da barbearia agradecendo. Bastou seu Oswaldo pegar a vassoura para limpar os restos de cabelo aos pés da velha cadeira que aparece à porta seu Paulo.
- Pronto! Resolvi o problema e já posso fazer minha barba agora...
O semblante de seu Paulo já estava mais relaxado. De fato, seu Oswaldo notara que o clima com os dois na barbearia não tinha sido muito bom e percebeu também que Paulo só havia saído para não estar no mesmo lugar que o Firmino. Assim que se senta na velha cadeira do barbeiro, este lhe pergunta:
- Ê, véio Paulo, diga lá as novidades...
Seu Paulo olha pra ele pelo espelho, mas, como também era costume do velho barbeiro, observa apenas os cabelos passando a mão na barba mediana do velho aposentado que permanece em silêncio enquanto seu Oswaldo vai reclinando a cadeira para a posição de barbear e, assim que termina o procedimento, seu Paulo fala:
- O amigo sabe que eu não sou de briga, né Oswaldo, mas esse homem que saiu daqui agora à pouco não gosta muito de mim por causa do que minha esposa fez pra ele...
Fazendo-se de desentendido, seu Oswaldo retruca:
- Oxente, cabra?! E o que foi que sua mulé fez pra esse pobre de Cristo?
- Você sabe que Aldegunda tem um gênio bem forte... Ela só quis aplicar as leis, fazer o que tá escrito nas normas, mas ele não entende isso...
Seu Oswaldo solta um sorriso irônico pelo canto da boca e decide atiçar um pouco a conversa...
- Mas ele disse que pra os amigos dela a lei não se aplicava. Era verdade mermo?
- Claro que não. Minha esposa é muito correta! Ela segue as leis, as leis que ela segue devem ser respeitadas acima de qualquer coisa!
Seu Oswaldo amplia ainda mais o sorriso irônico do canto da boca e apimenta mais ainda a conversa, talvez com o objetivo de arrancar alguma coisa escondida do velho Paulo...
- Mas o senhor há de concordar comigo, seu Paulo, que existem situações em que as leis não podem ser aplicadas como tão nos papéis, né não?!
- Acho que não... O problema do mundo é justamente esse: se todo mundo seguisse o que tá prescrito nas leis, nas leis de Deus e nas leis dos homens, o mundo não taria desse jeito que tá... Todo mundo só ia fazer o que é certo e ninguém errava nada... O mundo seria melhor se todo mundo seguisse as leis, seu Oswaldo, bem melhor, com certeza...
Seu Oswaldo se cala, mas não se convence deixando o sorriso do canto da boca esmorecer paulatinamente...